(crónica de Tsering Paldrön)
Acho que o desenvolvimento de um país se mede pelo civismo dos seus habitantes. Porque onde há civismo há educação e onde há educação vive-se bem, mesmo que seja com pouco dinheiro.
Uma das coisas que mais me afligem hoje na sociedade portuguesa é a falta de civismo pelo que denota de egoísmo mesquinho e de subdesenvolvimento mental. Esta falta de sentido de responsabilidade cívica estende-se de forma aflitiva a toda a sociedade e manifesta-se de alto a baixo da pirâmide social. Desde o absentismo dos deputados da Assembleia, até à maneira selvagem e inconsciente como se comportam na estrada os portugueses, essa ausência crónica de sentido de responsabilidade civil aflige-me, entristece-se e incomoda-me.
Onde quer que os homens vivam em conjunto, seja numa família, numa aldeia, numa cidade ou num país, as regras da convivência social existem para que a vida de todos seja mais simples e mais fácil.
Quando essas regras são cumpridas, quando cada um além de pensar em si, pensa também – um pouquinho que seja – nos outros, tudo é bem mais agradável. É isso que distingue a vida cívica organizada da selva e do caos, do salve-se quem puder.
Não somos decerto mais estúpidos do que os outros. Mas sofremos de um síndroma deplorável que se perpetua de geração em geração: o chiquespertismo, a crença arreigada e irracional de que podemos fazer tudo o que queremos porque somos mais espertos do que toda a gente. Os outros bem podem esperar pacientemente na fila, nós vamos pela berma; os outros bem podem pagar os impostos, nós somos campeões da evasão fiscal; os outros bem podem ter palavra e assinar contratos, nós estamos acima dessas coisas.
O pior é que, cegos pelo nosso atavismo, chegamos a considerar o chiquespertismo como uma qualidade, um ideal de vida, um exemplo a seguir. Não deve haver muitos países onde pessoas suspeitas de corrupção sejam eleitas pelo povo como seus representantes autárquicos. Uma sociedade normal, escolhe os melhores e os mais competentes para a representar e a governar e, assim, esta nossa escolha é a prova cabal do valor que damos ao chiquespertismo e de como ele nos merece toda a confiança e admiração.
Esta atitude infeliz é o mote do nosso portuguesismo. É desta irresponsabilidade que padece a nossa sociedade em geral, irresponsabilidade que se traduz também em incompetência e laxismo.
Não é só por sermos pequenos e pobres que somos pouco desenvolvidos – outros países tão pequenos ou mais do que nós estão entre os mais desenvolvidos da Europa – é sobretudo por sermos tão pequenamente espertos em vez de sermos verdadeiramente inteligentes.
E qual é a diferença? O chico-esperto só pensa nele e só a curto prazo. Quer benefícios avultados e imediatos, seja qual for a factura para o ambiente ou para a sociedade, e mesmo que para tal tenha de pôr os outros – às vezes também ele próprio e a sua família – em risco. O chico-esperto é corrupto e tenta passar através das malhas, com a certeza de que enganará tudo e todos e de que sairá sempre impune. O chico-esperto é oportunista e irresponsável e, como pensa que pode
escapar às consequências dos seus actos, não está de forma alguma preparado as enfrentar.
A atitude inteligente é entender que, como estamos todos ligados, a sociedade funcionará melhor se cada um cumprir a sua parte; que todos ganharemos se os mecânicos, os taxistas, os empreiteiros, os médicos, os advogados e todos nós, formos honestos e tivermos ética profissional; e que, isso assim for, as nossas empresas serão mais competitivas, haverá menos desemprego, mais ideias, mais iniciativa e melhores condições para toda a gente.
Temos um país bonito e cheio de possibilidades, temos uma luz espantosa e um clima estupendo. Somos um povo pacífico e tolerante, acolhedor e caloroso. Se excluirmos os incêndios no Verão (muitos deles fruto da chiquespertice nacional), poderíamos até dizer que poucas catástrofes cá chegam. Então que nos falta para sermos felizes?
Podem crer que, se cada um de nós assumisse as responsabilidades familiares, profissionais e cívicas que lhe competem, Portugal seria um verdadeiro paraíso sobre Terra.
Nota:
Tsering Paldron (Emília Marques Rosa) nasceu em Lisboa em 1954, numa família tipicamente portuguesa. Estudou no Lycée Français Charles Lepierre e, mais tarde, na Universidade de Letras de Lisboa. Por razões pessoais deixou Portugal em 1973 e foi viver para Bruxelas,
onde, pela primeira vez, tomou contacto com o budismo tibetano…….